Especialistas questionam alto volume de água na barragem em Brumadinho

Todo o horror dos últimos momentos das pessoas que trabalhavam na Mina de Córrego do Feijão, da Vale, em Brumadinho, foi exposto ontem em dois vídeos das câmeras de segurança do complexo minerário, exibidos ontem por emissoras de TV. Os vídeos mostram o exato instante do rompimento da Barragem 1 de rejeito de minério de ferro, no dia 25. Na análise de especialistas , um dos vídeos sugere que havia mais água do que o esperado para uma barragem que estaria inativa, segundo a Vale, desde 2015.

A parede do reservatório, constituído do próprio rejeito, se desmancha e a montanha se desfaz, como se explodisse, ejetando um tsunami de pedras, sílica (areia) e água.

Funcionários e terceirizados, desorientados, tentam fugir e são tragados pela onda, que se propaga como um rolo compressor capaz de triturar construções, maquinário pesado e pessoas quase que instantaneamente, diz o Extra.

O professor de geologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) José Carlos Seoane explica que essas estruturas são instáveis. Uma pequena fissura, ou a liquefação no interior da barragem por percolação de água, poderia funcionar como gatilho para um rompimento explosivo. A barragem 1 de Córrego do Feijão despejou enorme volume de rochas, sílica e, sobretudo, água. Segundo a Vale, 12 milhões de metros cúbicos de rejeito vazaram.

Especialista em geoprocessamento e mineração, ele disse que chama atenção o volume de água mostrado na barragem em imagens de satélites nos dias anteriores ao rompimento. Os vídeos reforçaram a hipótese de que havia um volume anômalo de água. Em tese, uma barragem inativa desde 2015 não deveria conter tanta água, diz Seoane.

Uma possibilidade é que a mineradora estivesse injetando água no processo de reaproveitamento do minério ainda contido no reservatório. A Vale tinha obtido licença para reaproveitar o rejeito, em dezembro de 2018. Descomissionamento não é o mesmo que esvaziamento da barragem. Significa que ela não receberia mais rejeito, mas que não necessariamente será esvaziada. Outra possibilidade é a infiltração por córregos represados pela mina.

Estruturas instáveis

O geólogo Hugo Kussama, que faz seu doutorado em análises de geoprocessamento, diz que essa água de riachos pode se infiltrar pelo rejeito e abrir caminhos. Se esse processo perdurar e não for contido, explica Kussama, um vibração insignificante, como a causada pela passagem de um trem, poderia ser o gatilho para causar uma liquefação. Em Fundão, a barragem da Samarco, que arrasou a bacia do rio Doce, ocorreu liquefação.

— Claro que esses problemas podem ser detectados no início e evitados. Existe equipamento moderno para isso. Mas o monitoramento que havia lá, pelo que foi dito até agora, era antigo — observa Kussama.

Há práticas seguras que foram ignoradas na operação da Mina de Córrego do Feijão, acrescenta Seoane.

Outra coisa que chamou atenção no vídeo foi evidenciar o quão perto estavam da barragem as instalações administrativas, o que Seoane destaca ser inadmissível. Ficavam situadas diretamente à frente da barragem, a cerca de um quilômetro, distância quase que instantaneamente percorrida pela tsunami de rejeito, não dando chance de fuga.

Um dos vídeos mostra uma visão panorâmica do exato momento em que a barragem estoura. Ela começa a se romper pelo alto, no centro, e, numa reação em cadeia, as laterais entram em colapso.

Com 86 metros de altura e coberta de grama, a barragem de Córrego do Feijão, vista de frente ou de baixo, se confundia com a encosta de uma montanha. A cerca de um quilômetro de distância estavam o refeitório e a área administrativa, que incluía as salas do pessoal encarregado do monitoramento da segurança.

Barragens de rejeito que se rompem são literalmente montanhas que explodem, colapsando sobre si mesmas. Elas nada mais são do que vales de antigos riachos fechados por entulho, ou rejeito, tirado da própria mina. Na de Córrego do Feijão, por ser antiga, de 1976, um gramadinho havia coberto a parede de verde e dava à estrutura vista de baixo a impressão de ser parte da montanha. Somente de cima era possível ver o rejeito e “as praias” que ele formava.

Nesse tipo de barragem, o rejeito é empilhado até fechar completamente o vale de um riacho, na altura estabelecida pela mineradora. Em condições normais, o topo da barragem permanece sólido. No vídeo se vê que havia veículos se locomovendo sobre o rejeito no instante do rompimento.

As pessoas que nele estavam ainda tentaram fugir, mas o chão cedeu e foram engolidas. Pois, quando, por algum motivo, uma barragem se rompe, o material contido lá é lançado como na explosão de uma bomba e todo o rejeito se liquefaz e se comporta como se fosse líquido.

A nuvem de poeira que se levantou da onda é resultado do convulsionamento do minério, da areia e da água. A onda de rejeito avançou rapidamente — a velocidade da chegada ao povoado de Córrego de Feijão, três quilômetros abaixo, foi estimada em 70 km/h — e engoliu tudo em seu caminho.

Num segundo vídeo, se vê a tentativa de fuga desesperada de pessoas que estavam em veículos e são cercadas pela lama, que acaba por tragá-las. A lama avança pela área de trabalho da mina e destroça um trem. O vídeo foi gravado do alto de um dos guindastes acima da barragem. Nele se vê a massa de lama cobrir completamente as pilhas de minério de ferro e arrastar o material com ela, rumo ao povoado de Córrego do Feijão.

Pessoas que estavam em uma picape e em uma retroescavadeira na mina e que aparecem no vídeo estão vivas. O operador Sebastião Gomes conseguiu escapar. Em depoimento à Polícia Civil, revelado pelo Jornal Nacional ele disse que a caminhonete foi atingida pela onda de lama. Para Sebastião, foi a locomotiva que salvou a vida deles. Ela foi empurrada pela lama para debaixo da picape, que foi jogada pra cima e não foi encoberta.

02/02/2019