Chuva, atrasos e crítica política marcam a primeira noite de desfiles da Série A em 2019

As sete escolas que abrilhantaram a primeira noite de desfiles da Série A enfrentaram a chuva forte para levar à avenida belos espetáculos. Se a crítica política deu o tom nos cortejos, a chuva antes da festa e os atrasos nos desfiles chamaram a atenção ao longo da noite.

Além das agremiações, um dos destaques da noite foi o governador Wilson Witzel, que marcou presença dentro e fora do seu camarote, de onde fez até coraçãozinho com as mãos para os espectadores.

Após o atraso de meia hora no começo do desfile, a Unidos da Ponte apostou em materiais sintéticos para apresentar ao público o enredo “Oferendas”. Após ser desalojada na preparação para o carnaval, a Alegria da Zona Sul abordou a umbanda com um desfile animado, ma que sofreu com falhas de som e ultrapassou em 1 minuto o limite de 55 minutos.

– Diante de tudo que a Alegria passou, estar aqui já é uma vitória, afirma Diego Araújo, enredista da escola da Zona Sul.

Bananas de verdade foram distribuídas ao público durante o cortejo da Acadêmicos da Rocinha, que criticou o preconceito e exibiu fotos de crianças mortas e desaparecidas da comunidade na fantasia de suas baianas. Com um desfile emocionante em homenagem à atriz Ruth de Souza, a Acadêmicos de Santa Cruz teve problemas no abre-alas, no segundo e no terceiro carro, que a levaram a estourar em 2 minutos o tempo máximo previsto pelo regulamento.

Dias Gomes foi o tema da Unidos de Padre Miguel, que levou para o sambódromo figuras como o eleitor pamonha, o defuntíssimo prefeito e um Odorico Paraguaçu metade político, metade diabo. Apesar do luxo, problemas na saída de carros da pista fizeram com que a escola extrapolasse em três minutos o limite dos 55 minutos. Doze mil garrafas pets foram utilizadas no abre-alas da Inocentes de Belford Roxo, que também reaproveitou caixotes de feira e pratinhos de isopor em um desfile marcado pelo desânimo, atesta o Extra.

A Acadêmicos do Sossego fechou a noite com um enredo sobre a intolerância religiosa. Esperado pela escultura do diabo inspirada no prefeito Marcelo Crivella, a escola surpreendeu e trouxe na última alegoria uma versão do Buda muito parecida com o ex-prefeito Eduardo Paes.

– Nada mais justo que reconhecer quem fez muito pela gente – afirmou o Wallace Palhares, presidente da agremiação.

Alegoria da Sossego homenageia Eduardo Paes Foto: Agência O Globo

A Acadêmicos do Sossego confrontou diretamente o prefeito do Rio Marcelo Crivella. Após o vazamento da polêmica escultura em que o político aparecia como o diabo, a Sossego decidiu retirar a imagem para evitar um processo judicial.

Para transmitir a mensagem, no entanto, a escola colocou uma imagem do ex-prefeito Eduardo Paes como Buda.

– Nada mais justo que reconhecer quem fez muito pela gente. Prefiro reconhecer quem fez o bem, então coloco como anjo. Por muitas vezes me senti pressionado (com a polêmica escultura). Eu tive que dar uma solução. Em nenhum momento disse que era ele – afirma Wallace Palhares, presidente da agremiação.

Uma das atrações do desfile foi o terceiro casal de mestre-sala e porta-bandeira da escola, no qual o pavilhão foi defendido por Anderson Morango, uma escolha em sintonia com a diversidade defendida pelo enredo.

Uma faixa logo na abertura da escola de Niterói pedia respeito com o carnaval: “Respeitamos a religião do prefeito Marcelo Crivella e queremos respeito com o carnaval. O Rio pede paz”, dizia a inscrição.

Inocentes de Belford Roxo

A Inocentes de Belford Roxo, sexta escola da primeira noite, entrou na Sapucaí para cantar “O frasco do bandoleiro”.

Chamou a atenção o uso de materiais descartáveis na confecção do carnaval. No abre-alas, por exemplo, foram utilizados 12 mil garrafas pets recolhidos na Baixada Fluminense. Por conta de problemas elétricos, o carro entrou apagado na avenida.

Tampinhas e frascos de plástico também ajudaram a compor algumas fantasias. A composição do segundo carro contou com caixotes de feira doados por feirantes do Parque São Vicente e pratinhos de isopor. No terceiro carro, pequenos potes e baús que compõe a alegoria utilizam garrafinhas de água mineral na decoração.

Entretanto, o desânimo de alguns componentes pode prejudicar a avaliação da escola. Muitos caminharam pela avenida e sequer cantavam o samba.

O desfile é assinado pelo carnavalesco Marcus Ferreira, campeão da Série A com o Império Serrano em 2017.

Unidos de Padre Miguel

A Unidos de Padre Miguel foi a quinta escola a desfilar na primeira noite de desfiles da Série A do carnaval 2019.

Com um desfile em homenagem ao escritor e dramaturgo Dias Gomes, a agremiação da Zona Oeste vem em busca do título que, nos últimos anos, escapou por pouco várias vezes. A agremiação teve na crítica social uma das tônicas de sua apresentação. Marcaram presença o eleitor pamonha, as lápide para o decoro, o defuntíssimo prefeito e um Odorico Paraguaçu metade político, metade diabo. “Aqui jaz a democracia”, dizia uma inscrição em um dos carros. Foi a primeira escola da noite a desfilar sem chuva. Entretanto, problemas na dispersão levaram a escola a correr, abrir buracos na avenida e finalmente estourar o tempo em três minutos. A bateria não parou no recuo.

A comissão de frente relembrou a saga de Zé do Burro, protagonista de “O Pagador de Promessas”, uma das principais obras do autor.

O ator Milton Gonçalves veio na segunda alegoria interpretando o personagem Odorico Paraguaçu, da novela O Bem Amado, um dos mais famosos do autor.

Acadêmicos de Santa Cruz

A Acadêmicos de Santa Cruz foi a quarta escola a se apresentar na primeira noite de desfiles da Série A do carnaval 2019.

A agremiação da Zona Oeste homenageia a atriz Ruth de Souza. Aos 97 anos de idade, ela viria em um trono, mas uma adaptação de última hora permitiu que a atriz desfilasse em sua própria cadeira de rodas. Os atores Érico Brás, Cris Vianna, Dani Ornellas e Lucélia Santos foram alguns dos famosos que desfilaram pela escola.

Tanto o abre-alas como o segundo e o terceiro carro alegórico tiveram problemas para entrar na avenida. A escola sofreu com dificuldades do tipo ao longo da apresentação e um dos carros chegou a passar com cheiro de queimado pelo recuo. A alegoria foi acompanhada por bombeiros. A escola estourou o tempo máximo de desfile em 2 minutos e algumas alas passarão sem sapato.

Antes do início do desfile, o presidente Zezo lembrou a morte de sua esposa dez anos atrás:

– Faz 10 anos que minha esposa faleceu hoje. Mas vou tratar com alegria eu sei que a alma dela está nessaavenida. Por isso, resolvemos homenagear a Ruth, uma mulher guerreira. Alguns não podem ser chamados de homens, porque destroem as vidas de mulheres. Nossos governantes têm que tomar vergonha na cara e atitude de homem para não deixar isso acontecer – afirmou Zezo, presidente da Santa Cruz momentos antes da escola entrar na Sapucaí.

No desfile da Santa Cruz, Witzel também marcou presença. Acompanhado do presidente Zezo, o governador cumprimentou a porta-bandeira da escola.

Acadêmicos da Rocinha

Terceira escola a desfilar, a Acadêmicos da Rocinha, apostou na irreverência para tratar de um tema muito sério: o preconceito.

A Rocinha deu seu recado desde a comissão de frente, que entrou na avenida com uma faixa na qual se lia a frase “somos resistência” e retratou grupos sociais que costumam ser vítima de discriminação, como a mãe solteira da favela, os LGBTs, os nordestinos e os moradores de rua. Uma das alas trouxe integrantes vestidos de macaco com bananas de verdade, que foram distribuídas ao público.

A agremiação investiu em fantasias com estampas de chita e enfrentou a chuva, que voltou a apertar. Entretanto, a pista molhada não foi suficiente para intimidar um menino que veio à frente da ala das crianças, com muito samba no pé. O casal de mestre sala e porta bandeira representou um macaco e uma banana. Um dos destaques da escola foi a ala das baianas, que exibiu fotos de crianças mortas e desaparecidas da comunidade, uma das maiores da Zona Sul.

Alegria da Zona Sul

A Alegria da Zona Sul, segunda escola a pisar na Marquês de Sapucaí nesta sexta-feira, tem a dura missão de superar um ano de dificuldades extremas. A agremiação perdeu o barracão no ano passado quando foi desalojada de um terreno na região portuária, antes mesmo do início da preparação e precisou construir suas alegorias em um terreno aberto na Avenida Brasil, ao lado da antiga fábrica Sabão Português. A escola tem como enredo “Saravá, Umbanda”.

– Diante de tudo que a Alegria passou, estar aqui já é uma vitória, afirma Diego Araújo, enredista da escola da Zona Sul, responsável pelo desenvolvimento do enredo da agremiação.

A escola desfilou sob chuva fina, mas persistente. Na apresentação aos jurados, os integrantes da bateria fantasiados de pretos velhos reproduziram os movimentos da entidade. Entretanto, falhas no som da avenida prejudicaram a apresentação, mas não tiraram a animação dos componentes. Entretanto, a escola estourou em 1 minuto o limite de 55 minutos para desfilar e deve perder pontos na apuração.

O governador Wilson Witzel e sua esposa Helena Witzel prestigiam o desfile. Animado, ele chegou a fazer corações para os espectadores.

O carnavalesco Marco Antônio Falleiros também destacou o clima de superação na escola:

– Foi o ano mais difícil da minha carreira. Estou na Alegria há 4 anos. Tive um mês para fazer esse carnaval. Série A sempre foi difícil, mas esse foi mais complicado. Ficamos sem verba. Não saiu nada até agora. Entrou dinheiro nenhum da prefeitura ainda – lamentou ele, que também enfrentou a chuva durante a concentração da escola.

Entre os destaques da escola no desfile, esteve a bateria, que representou pretos velhos. Já a comissão de frente é uma sessão de umbanda.

– Os umbandistas são humildes. Alegria está buscando ser gigante mesmo na humildade dela. É o carnaval mais emocionante da minha vida – diz Araújo.

Unidos da Ponte

Após um adiamento de meia hora por conta da chuva forte que caiu no Centro do Rio, a primeira noite de desfiles das escolas de samba da Série A do carnaval 2019 começou na Sapucaí por volta de 23h.

Primeira das sete a desfilar, a Unidos da Ponte se apresenta com o enredo “Oferendas”. A opção por materiais sintéticos fez com que as alegorias e fantasias da agremiação não perdessem o brilho. Ao fim do desfile, o presidente Rosemberg Azevedo lembrou que a Ponte já havia enfrentado um incêndio em maio e o atraso no repasse das verbas da prefeitura durante os preparativos para o carnaval 2019. Hoje, a escola chegou a enfrentar pontos de inundação na concentração. Em reconhecimento ao esforço de enfrentar o temporal, a agremiação teve seu desfile aplaudido e o samba cantado pelo público nas frisas.

O governador Wilson Witzel e sua esposa Helena Witzel prestigiam o desfile, que acontecia sob chuva fina por volta de 23h40.

02/03/2019